Uma vez minha mãe me contou que quando eu nasci, eu não chorei. Ela falou que o médico precisou me dar um tapa pra que o choro preso dentro de mim fosse embora.
Eu explodi em lágrimas e gritos.
Eu cresci e continuei chorando.
Chorei quando caí de bicicleta e machuquei o joelho.
Chorei quando meu cachorro morreu.
Chorei quando o menino que eu gostava disse que não gostava de mim.
Chorei quando minha sobrinha nasceu.
Chorei quando meu irmão foi embora.
Quando eu adotei meu primeiro gato.
Chorei quando meu pai ficou uma semana em uma cama de hospital.
Quando os meus amigos me deixaram.
Chorei quando eu fui embora. E quando eu voltei, chorei porque minha avó não lembrava mais de mim.
De todas as vezes que eu chorei, minha mãe me abraçou e disse que tudo ia ficar bem.
Tudo ficou bem.
Às vezes eu ainda choro. Quando isso acontece, eu lembro do que ela me dizia:
"Trancar o choro? Oras, isso é absurdo. Cada lágrima que escorre do teu rosto é uma dor que vai embora, então deixa ir."
Eu me perguntei várias vezes como pode uma pessoa ter tanta dor dentro de sí.
Às vezes eu acho que é porque eu sinto muito. Em outras, porque eu não sinto nada.
Não maioria das vezes, é porque eu simplesmente estou aqui, e estar aqui faz chorar.
Tudo bem.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Tapa
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